Natal da castanha portuguesa numa casa itahyense afrobrasileira
Helcias Pádua - Biól. C.F.Bio 00683-01/D
- Tupã amogaraiba, yawé ara catú omebê peeme -
dezembro de 2007

As festas natalinas nos fazem relembrar de coisas boas e não tão boas. São recordações..., são emocionais.

Recordo do leitãozinho que minha avó Da Francisca trazia de ônibus, Viação Anhanguera, carinhosamente temperado lá da cidade de Itú/SP, para ser assado no grande forno da padaria do bairro do Itaim Bibi, na esquina da rua Clodomiro Amazonas com a Joaquim Floriano

Quem orgulhosamente o levava para pururucar e ía buscar era o meu pai, sempre um dia antes, após marcar a hora na lista enorme de reservas de espaço no quentíssimo forno a lenha. Antes disso, o delicioso e enfeitado suíno ficava esperando a sua vez na geladeira do estabelecimento. Era uma das iguarías consumidas na grande Ceia de Natal dos Pádua.

Outra coisa que não podia faltar na estendida mesa coberta de linho bem alvo era a funda bandeja com Castanha Portuguesa. O velho Orestes tinha uma predileção especial por esse tubérculo lusitâno. Mesmo de preço alto e põe dindins nisso e ainda mais naqueles tempos, a minha mãe Da. Benedita fazia questão de ir reservando uns tostões para que no Natal não faltasse as cozidas castanhas marrons e de massa acinzentadas. Para um melhor cozimento tinha-se que dar um pequeno corte em uma das suas extremidades.

Ele, o velho Orestes, as saboreava com orgulho de um responsável chefe de uma clã afrobrasileira, unida em torno da estendida mesa da cozinha e cheia das comilanças típicas e outras não tão nativas. Bebia-se champagne.

Mas nem todos os natais foram assim tão fartos. Lembro-me de um bem triste, choroso até. É que o meu pai, funcionário público federal e na época dependente da vontade e verba da nem sempre planejada administração do INSS de então, o IAPB, acreditou que iria ter em dezembro o seu dinherinho a mais.

Naquele ano prometeu-se aos funcionários um tal de 13 salário, novidade na época e de início quase rigorosamente cumprido pelas empresas particulares, mas não por muitas e muitas instituições oficiais.

O meu pai esperou, esperou, esperou o dinheiro que não veio. Lembro vê-lo chegando do serviço, cada vez mais triste, conversando com a minha mãe e fazendo as contas.

A minha tia Da. Gula, (Urgulina), como sempre, deu um jeito.
Passou uns dois dias passando e engomando as roupas da casa dos Couto de Magalhães e da família do Sr. Brandão, o farmacêutico.

Assim ganhou um dinheirinho extra e contribuiu para engrossar generosamente aquele nosso Natal. As castanhas e outras comidas mais simples ganharam um sabor todo especial, o sabor da UNIÃO FAMILIAR.

Abenção Pai Orestes. Abenção Mãe Benedita.
Beijos carinhosos Avó Francisca. Obrigado, de coração, Tia Gula
Que o Menino Jesus continue lançando seu olhar de proteção para as continuadores da família Pádua. Minhas filhas Arethuza e Paloma.