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Chocolates Kopenhagen
Autor: Mário Lopomo - colaborador - AGMIB
Vou falar um pouco da fábrica de chocolates Kopenhagem, aproveitando que minha
irmã Teresa, lá trabalhou por longos trinta anos.
Foi seu único emprego. Ela iniciou seu trabalho em Março de 1949, e se aposentou
em setembro de 1979, depois de dar entrada com os documentos no mês de junho.
Fundada em 1928, a Chocolates Kopenhagen oferece uma variedade de produtos que
marcaram época e já seduziram três gerações de brasileiros, como Nhá Benta,
bombons Cherry Brandy, Língua de Gato, Chumbinho e os famosos marzipãs.
Com muita perseverança, David conquistou clientes para o produto e, em poucos
anos, o casal fundou a primeira fábrica da Chocolates Kopenhagen, no bairro
Itaim Bibi, com excelentes instalações e tecnologia mais avançada. Assim, a
empresa passou a produzir também chocolates finos, bombons, balas, confeitos,
biscoitos, além de ovos de Páscoa e panetones.
A história da empresa no País começou com a
chegada do casal de imigrantes Anna e David Kopenhagen. Anna trouxe da Letônia a
receita de marzipã, confeito muito popular na Europa, mas até então desconhecido
no Brasil
Marzipã, era uma massa que tinha farinha, (ou polvilho) manteiga, amêndoa
amarga, Tereza não tinha uma certeza total de toda a receita porque ela era
feita numa seção, que ela não trabalhava.
Sua seção era a de a de Cherry Brandy, que era o forte da Kopénhagem. Mas o que
ela conseguiu saber a respeito, ai está relatado.
Mas o inicio e do sucesso inicial se deve ao marzipã, apesar de o cherry brandy
ter uma produção maior devido aos pedidos.
O sucesso do chocolate da Kopenhagen era a fabricação do chocolate ao leite em
que ela se aprimorou em colocar no ponto exato que o chocolate necessitava para
ser aquela doçura e a fama do melhor chocolate, produzido no Brasil.
Tinha gente que dizia que era melhor do que o chocolate Suíço. Tanto prova que
ao se aposentar não havia outra pessoa a deixá-lo no ponto exato, como era
antes. Para solucionar esse problema Teresa foi chamada de volta ao trabalho,
mas foi por pouco tempo até que outra pessoa ficasse a par do preparo e do ponto
exato, do chocolate ao leite e do Cherry Brandy.
Apesar de dona Anna ser percussora do Marzipã, e de dar o ponta pé inicial da
fábrica, ela não ia muito lá. Ia de vez em quando passear. Seu Davi não gostava
que ela fosse lá. Como ela era muito querida e chamava atenção dos funcionários
com perguntas e uma conversa mais afiada. Ele achava que ela atrapalhava a
produção.
Ele sim trabalhava diretamente na fábrica. Ficava no escritório e percorria a
fábrica toda para ver seu funcionamento. Seu Davi não era um patrão chato. Pelo
contrário, ele era muito bom. Colocava-se na pele do trabalhador. Cumpria com
precisão com as leis do trabalho. Dava certas regalias aos funcionários, como
hora do café às 15 horas. Coisa que seu genro Jak, que participava da direção da
fábrica quis cortar o horário do café, sendo duramente chamado à atenção, com
palavras ríspidas de seu Davi. “Enquanto eu viver os funcionários não ficariam
sem o café”.
O café era feito na seção onde as senhoras mais antigas da firma faziam o
marzipã.
E enquanto Teresa lá trabalhou o café não deixou
de ser servido, mesmo depois que seu Davi morreu.
E ai a presença de dona Anna foi diária, ela chegava às nove horas e saía as
onze e trinta, no horário que todos iam almoçar. Ela tinha um problema na perna
e mancava bastante. Estava sempre apoiada em sua filha Silvia. Este medo de a
mãe vir a cair.
Quem passou a administrar a firma foram os genros Bernardo casado com Lili, e
Jak casado com Silvia, as filhas do casal. Bernardo já fazia parte da
administração junto com o sogro. Jak veio depois.
Os dois não se davam muito bem na direção da firma. Era uma espécie de
incompatibilidade de gênios. Para evitar coisa pior Bernardo se afastou ainda
com seu Davi ainda vivo. Depois que seu Davi morreu, Jak ficou sendo a principal
figura na direção. Criando depois uma Hold. Dona Anna morreu já nos anos 1980.
O período mais forte da Kopenhagem era na época da Páscoa, quando os pedidos
eram muitos, e fazia-se necessário trabalhar bastante logo a seguir o carnaval.
Mas o preparativo para a produção visando a Páscoa começava logo no inicio de
janeiro. Depois de passar o Natal, um período de bastante serviço também, só que
não se igualava a Páscoa.
As más línguas diziam que pelo fato de o seu Davi ser judeu, ele pouco se
importava que os funcionários ficassem inclusive na sexta feira santa,
trabalhando das sete horas até meia noite ou mais. Teresa conta que um dia seu
pai foi buscá-la à uma hora da madrugada, e ela tinha que ficar até mais tarde
porque ainda tinha muito serviço pela frente. O pai ameaçou que se ela não fosse
imediatamente pra casa ele invadia a fábrica e quebrava tudo.
Rosária, a chefe geral de produção sabendo de quem se tratava, abriu uma exceção
e a liberou. Tanto ela como meu pai foram, madrugada a fora a pé da Rua Joaquim
Floriano, até a divisa da Vila Olímpia a pé, pois não havia condução para chegar
em casa. Ele carregando o pacote de presente aos funcionários.
Sim, quando terminava o trabalho, tanto na semana da Páscoa como no Natal, todos
os funcionários eram presenteados com um pacote dos produtos que se fabricava, e
uma gorda premiação em dinheiro anexo ao salário, e horas extras. Era mais da
metade do salário normal, isso até quando seu Davi foi vivo, porque depois de
sua morte, seu Jak, diminuiu não só o tamanho do pacote, como também a
gratificação que passou inclusive a ser incorporado ao envelope de pagamento (olerite).
O forte desse pacote de iguarias se destacada um tipo de panetone, em forma de
filão de pão da época, para mim a coisa mais gostosa da fabricação, não só da
Kopenhagem, como de todas as fábricas juntas. Tinha muitos bombons, balas,
biscoitos, ovos de geléia, coelhos como o famoso coelho Bibi, e as coelhas
Sebastiana e Sebastianinha, várias embalagens de ovos minúsculos de chocolates
maciços, sem contar com vários ovos de tamanhos variados. Só sei dizer que tinha
chocolates para muito tempo.
Tudo na Kopenhagen em termos de chocolates era coisa que diferenciava bastante
das demais empresas, só de falar no nome da fábrica as pessoas ficavam com água
na boca, mas achavam os preços muito altos. Desde o tipo de cobertura, que tinha
um ponto inigualável, o qual era produzido por minha irmã Teresa. O chocolate da
Kopenhagem, além do marzipan que dona Anna trouxe da Letônia, tinha o segredo do
chocolate ao leite coisa que ninguém conseguia igualar.
Nos anos 1960 o candidato a deputado estadual Leôncio Ferraz Junior, foi lá na
fábrica com autorização da diretoria fazer seu nome para campanha. Para que
ninguém ficasse com fome serviu sanduíches de mortadela e refrigerantes. A
sirene anunciando a entrada e saída era rouca, qualquer um sabia que era da
Kopenhagen, que diferenciava da sirene da Usina da Traição, mais estridente, já
que móveis Artesanal dava o toque de saída na base do sino interno. Uma roda de
ferro, com um mastro de ferro que além dos funcionários, só os vizinhos dos
lados ouviam.
Desde 1996 sob nova administração, a fábrica do Itaim Bibi foi transferida para
Tamboré e sofreu um profundo processo de modernização e expansão.
Atualmente, a empresa está presente em 60 cidades, com uma rede de mais de 215
lojas, além de ter presença no mercado internacional. A Kopenhagen produz mais
de 300 itens diferentes e é, há 78 anos, sinônimo de tradição, sabor e qualidade
em chocolates e confeitos finos.
Quem quizer ver as fotos desta história, é só acessar, meu blog _ http://mlopomo.zip.net
Mário Lopomo
# pitacos da AGMIB
- O Sr. David e Da. Anna iniciaram a confeção
dos doces na cozinha de uma casa na então Chácra do Itaim. Era a maneira de
sobreviver, visto serem refugiados, sem muito conhecimento da lingua.
- O Sr. David, não tinha qualquer experiência no
trabalho mais duro tão comum na época. Dizem que estudava medicina em sua
terra natal. Suas mãos eram lisas.
- Chegaram no Brasil entre 1927/28. Depois de
muitas dificuldades e através dos doces da Da. Anna, inicialmente vendidos de
porta a porta, foram melhorando e crescendo até a compra (início da déc de 30)
de um enorme terreno, local de encontro da juventude, usado pelo time de
futebol - Flor do Itaim.
- Era lá na esquina da então continuação da av.
Brigaderio Luiz Antônio, atual rua Joaquim Floriano. Faz esquina com a ex rua
Tapera, depois Bandeira Paulista, rua 1932 e novamente Bandeira Paulista.
Atualmente a área é ocupada pelos magestosos prédios da BRASCAN, local de
encontro dos itahyenses e de elegantes e preocupadas pessoas.
- Da Kopenhagen temos a tradicional loja na rua
Joaquim Floriano, vizinha do terreno da antiga Kopenhagen. Em uma das suas
paredes internas, vê-se uma pequena foto da Fábrica Kopenhagen, tirado pouco
tempo antes da sua mudança do bairro.
- Recentemente, (2007), foi inaugurada aqui no
bairro Bibi, outra agradável loja, ocupando uma singela casa térrea na rua
Manuel Guedes, entre a rua Tabapuã com a Jerônimo da Veiga. Vale a pena
visitar. É linda e com a grande vantagem de poder saborear todos os chocolates
da Da. Anna e Sr. David Kopenhagen. Alias, no tempo da fábrica, o Itaim Bibi
cheirava à chocolate. Que delícia.
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